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Hobbies

"Hobbies são manias que protegem o mundo de nossa insanidade, adquira alguns e terá menos vontade de atirar objetos sobre outras pessoas."
Viviane das Graças Vieira


domingo, 26 de setembro de 2010

Saudades (para meus grandes amigos pelos bons momentos)

Estou lhe escrevendo pra dizer que sinto sua falta. É sério, sinto mesmo. A vida perdeu um pouco da cor, as noites ficaram mais longas e os dias vazios, até mesmo as ameixas da casa do vizinho deixaram de ter o mesmo sabor.
Cheguei a casa mais cedo certa tarde e procurei na casa inteira, revirei meus livros, passei por todos os canais da TV, fiz uma busca avançada no Google e ainda assim não encontrei o que procurava. Corri a mão na lista telefônica e já estava preparada para ligar para o CVV, então olhei o porta-retrato na escrivaninha do lado do telefone e percebi que sentia tua falta.
Sinto falta das vezes que enlouquecíamos o dono da locadora rindo dos nomes dos filmes e citando as teses que nos impediam de alugar o filme do Pelé ou do Homem Mosquito...
Sinto falta do sorvete que dividíamos quando tínhamos tempo entre uma aula e outra, ou dos salgadinhos que comprávamos depois de ter contado todas as moedas do fundo da bolsa...
Sinto falta das conversas embaixo de uma grande árvore que tinha na praça, de como o vento soprava de leve e a sombra era gostosa. Também sinto falta das vezes que chovia e tínhamos que sair correndo a procura de um abrigo...
Sinto falta das vezes que conversávamos e conversávamos por horas... Sinto falta de quando dividíamos a caixa de bombom dentro do cinema, enquanto todo mundo comia pipoca; de quando dividimos o último pacote de batatas fritas, de quando dividimos problemas, soluções, medos, paranóias e bobagens... Muitas bobagens...
Tenho saudades das vezes que brigávamos para ver quem estava certo, mas no fim nem importava. Tenho saudades de quando orávamos juntos, cantávamos juntos, acordávamos de madrugada, enfrentávamos a chuva e o céu negro da tempestade, depois nos encolhíamos embaixo de um só guarda chuva...
Pode parecer nostálgico, e é! Mas hoje, por esse minuto quero me permitir ser... Em alguns momentos - preciosos e bons momentos - a vida nos permite ver um filme antigo rodando na nossa memória. E só quem já sorriu dos próprios tombos, quem já tomou banho de chuva, já pagou mico no ônibus ou ficou batendo papo até altas horas na calçada pode entender o gosto que tem a experiência de tentar puxar esses momentos de novo e tentar fazer acontecer mais uma vez.
Sinto falta de quando jogávamos Uno, assistíamos a filmes no meio da tarde. Atravessávamos a pé o lado errado do estacionamento do shopping, apostávamos quem comia o lanche mais rápido, rachávamos a conta. Corríamos pra pegar o ônibus, sentávamos nos bancos altos ou nos últimos só para não fugir do convencional.
Sinto falta das mensagens de celular, dos e-mails engraçados, dos comentários irônicos, dos bilhetinhos passados de mão em mão enquanto a professora não estava olhando.
Sinto falta de tanta coisa, que quase nem cabe em mim...
Por não caber em mim, a saudade me convenceu a te escrever. Não faz tanto tempo que nos vemos, foi perto do orelhão aqui na rua, há poucas horas na igreja, de manhã pela janela do ônibus... Nem estamos há tanto tempo sem se falar foi nesta ou na outra semana pelo telefone ou e-mail. Mas parece que faz tempo, porque quando cheguei a casa, cheguei cedo demais e tinha tempo demais até a hora de dormir, foi assim que encontrei espaço demais pra sentir sua falta.
Amanhã quando nos encontrarmos ou nos falarmos, ou mesmo se isso não acontecer porque a distância pode impedir gostaria que soubesse que ainda há espaço no meu tempo e na minha memória para mais sorvetes, mais filmes, mais conversas e mais risadas... Eu sempre vou estar aqui...

VIVIANE DAS GRAÇAS VIEIRA

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Desabafo.

Feia, solitária, pequena, insignificante, essa sou eu. Aqui, trancada numa vida nostálgica, já nem me lembro que faço parte da criação. Será que alguém sente a minha falta? Num mundo como este, individualista, nunca fui lembrada, sequer mencionada; quem me procuraria?Foi sempre assim, eu andava pelas ruas, avenidas, jardins, observava a natureza, mas, será que ela me observava? Diante dessa imensa solidão não acho importância na minha existência. Tantas pessoas passaram por mim, tantos invernos, tanto frio e eu sozinha. Se ao menos lembrassem ou tivessem a ousadia de procurar-me, mas quem?Se soubessem da minha paixão pela vida, minha vontade de ser feliz, meus desejos, meus objetivos, a minha beleza interior. O mundo vive de aparências, quando mais nova dentro de mim existia a esperança de cruzar o céu, de ser importante, admirável... Essa esperança se finda e me consome. Prefiro privar o mundo dessa horrível aparência. Mas até quando? Até quando eu ficarei aqui, nessa escuridão profunda? Ao falar sinto algo estranho acontecendo, acho que é o meu fim, acabou! A solidão fez o que devia ser feito. A sensação é estranha, não sei se é adeus ou um recomeço, simplesmente começo enxergar uma luz...
No decorrer do ciclo da vida, de um casulo no alto da árvore, surge uma nova vida, linda e bela: uma borboleta.
VIVIANE DAS GRAÇAS VIEIRA

23 de setembro: inicio da Primavera

quarta-feira, 23 de junho de 2010

CARTA À SEQUESTRADORA

Prezada sequestradora,
Não que lhe preze de verdade, mas não sabia ao certo que cumprimento usar. O que venho através dessa carta é pedir, mais do que pedir, suplicar que me devolva para mim. Que me leve de volta para o meu lugar, devolva meus sonhos e planos, deixe-me recuperar meus amores.
Não creio que este seja um pedido incabível, eu, melhor do que ninguém, o posso fazê-lo. Podia, para convencê-la, contar-lhe minha história, descrever meu sofrimento, se bem que os conhecem todos, pois fostes a única durante este cativeiro a testemunhar a minha dor.
Eu sei que não adianta gritar, brigar ou espernear, resolvi, então, lhe escrever de forma adulta  e cordial, para quem sabe, você me ouça, me atenda e me liberte. Permita-me ser eu mesma, sem medo nem receio, e talvez amanhã quando despertar a  primavera, o raio de sol que acorda as flores venha iluminar o meu quarto, uma suave brisa bata a minha janela e a porta se abra para a rua, para as cores e para quem quer que passe.
            Se meu pedido, até agora, não alcançou seu consentimento e sua compaixão, gostaria que se lembrasse do dia em que me fez prisioneira e roubaste o meu céu.
Lembro que era uma tarde de outono, um lindo céu azul, uma brisa gostosa que fazia os galhos das árvores dançar levando ao chão as folhas amareladas, lembro das crianças correndo no parque jogando uma pequena bola para um cachorro, recordo, como se fosse hoje, dos adolescentes que voltavam da escola comemorando o fim de mais um dia de aula.
Quero que se lembre desse dia, do frio da tarde que previa o inverno. Quero que se lembre e não me permita esquecer do gosto das coisas simples.
Não quero sua tecnologia, seu raciocínio lógico ou sua inteligência, não quero ciências exatas, nem sua matemática; não quero os números que revestem as paredes, as possibilidades de fracassos e as porcentagens, não ligo para os gráficos ou para as pesquisas das grandes revistas, não preciso de toda essa proteção.
Só te peço que me devolva as boas lembranças, a liberdade de pisar na areia e senti-la entre meus dedos, o gosto da chuva tocando o meu rosto e o cheiro da terra molhada. Devolva-me o brilho nos olhos e o sorriso verdadeiro.
Permita que esse inverno acabe, que venha logo a primavera com sua roupa leve e colorida, e que no verão esta história seja contada, pela lição que dela foi tirada, da vez em que a razão seqüestrou a emoção, mas em tempo caiu em si, entendeu que assim não podia ser feliz, que o certo as vezes é incerto e que o exato é passivo a falhas; voltou, então, a sua razão fez-se submisso ao seu seqüestrado, tornou-se aliado do seu coração.

VIVIANE DAS GRAÇAS VIEIRA